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Quais as perspectivas para os mercados em 2020?

Atualmente, o cenário que está ganhando espaço consiste em antecipar uma recuperação suave da economia mundial após as quedas nos últimos dezoito meses, sempre acompanhada pelo apoio dos bancos centrais.

Brasil | 28/11/2019

Agora que os piores cenários possíveis foram descartados (talvez definitivamente) por um lado nas negociações entre a China e os Estados Unidos, e por outro, entre a Grã-Bretanha e União Europeia, os índices de ações podem finalmente quebrar as barreiras que impediam o seu crescimento desde o final do mês de abril desse ano. O regresso, ainda que tardio, do apoio dos bancos centrais após a sua lamentável tentativa de saída em 2018, proporciona aos mercados o combustível necessário para celebrar este final do ano das bolsas com alegria, livre das suas visões de pesadelo.

Agora que as tentativas de orientação monetária restritiva e as negociações comerciais na corda bamba foram descartadas, será que esta dinâmica renovada coloca o ano de 2020 sob boas perspectivas?

Atualmente, o cenário que está ganhando espaço consiste em antecipar uma recuperação suave da economia mundial após as quedas nos últimos dezoito meses, sempre acompanhada pelo apoio dos bancos centrais. Tal ação permitiria sustentar os resultados das empresas e, consequentemente, os mercados de ações, sem desencadear uma elevação acentuada das taxas de juros. Este cenário explica porque na recente evolução dos mercados, os títulos cíclicos saíram do seu purgatório nas últimas semanas e porque as taxas de juros das rendas fixas, após a queda registrada até o mês de agosto, estão se recuperando desde então, mas sem excessos. Após o receio do pior, antecipa-se o melhor: os mercados foram sempre reticentes com o meio-termo.

Infelizmente, esta bela história baseia-se em várias hipóteses nunca corroboradas. Em primeiro lugar, no plano econômico, embora seja verdade que alguns dos principais indicadores tenham supostamente se estabilizado, associar as boas notícias com uma melhoria econômica generalizada constitui um ato de fé neste momento. Em particular nos Estados Unidos, a locomotiva econômica por excelência, o consumidor incansável que sustenta o crescimento com o seu otimismo inabalável tem-se deparado com novos obstáculos há algum tempo. Primeiro, a continuidade da diminuição do desemprego, que tinha alimentado a sua confiança desde 2010, foi interrompida. Em seguida, o setor bancário tornou-se mais reticente em conceder crédito ao consumo muito barato para alguns mutuários, cuja taxa de endividamento explodiu. Por outro lado, este tema da deterioração do mercado de crédito também começou a afetar as empresas. Desde os pequenos intervenientes do setor do gás de xisto, que se endividaram fortemente para financiar projetos agora não rentáveis. Até a WeWork, empresa de aluguel de espaços de trabalho, que caiu em desgraça e o mercado se recusou a financiar, além do crescimento que nestes últimos anos se baseou no sobre-endividamento através de taxas de juro irrisórias deverá terminar. Como tal, a desaceleração americana, que na verdade só teve início este ano, poderá continuar em 2020. Ao mesmo tempo, a China, ansiosa em eliminar a dívida de sua própria economia, recorre a medidas de apoio de forma cuidadosa. Não é exatamente uma estabilização trabalhosa da taxa de crescimento em níveis mínimos desde 2015 que permitirá às exportações alemãs se recuperarem em 2020. Além deste panorama macroeconômico ainda precário, o apoio monetário também não deverá causar muita ilusão. É certo que a Fed injeta mensal e recorrentemente a liquidez que é tão necessária ao seu sistema bancário. Esta é uma boa notícia, principalmente para o mundo emergente, ávido por dólares norte-americanos. No entanto, o banco central americano acaba de suspender o movimento de queda das taxas de juros diretoras. Quanto ao Banco Central Europeu (BCE), a sua nova presidente, Christine Lagarde, já vê os seus poderes confrontados pelo primeiro teste por parte de alguns dos seus colegas, que contestam a política monetária ultraflexível deixada por Mario Draghi.

Também pode ser tentador acreditar na abertura de um capítulo totalmente novo na história da economia, sob o qual as políticas de estímulos orçamentários, possibilitadas pelo apoio incondicional e constante dos bancos centrais, permitiriam o surgimento de uma versão moderna do keynesianismo combinado com criação da moeda. Os investidores deveriam, portanto, rever profundamente os destinos de seus ativos: o provável enfraquecimento das moedas norte-americana e europeia resultaria, neste cenário, na forte valorização das moedas emergentes - e, de forma mais geral, das ações e da renda fixa das regiões em questão -, o preço do ouro seria cobrado por sua vingança contra "ex-moedas fortes", as ações cíclicas seriam tomadas contra os títulos de crescimento e os investidores passivos nos mercados de renda fixa poderiam apenas lamentar sobre dez anos de boas memórias. A realidade é que a previsão mais certa para 2020 é um prognóstico de uns anos que, de qualquer forma, dificilmente se desenvolverá de forma harmoniosa como foram os últimos dez anos. Será necessário observar de perto a evolução macroeconômica e a forma como os governos e bancos centrais cooperam para responder a esse desenvolvimento. Também será necessário ler com atenção o programa econômico de Elizabeth Warren, candidata democrata às eleições presidenciais norte-americanas, e acompanhar de perto a sua eventual ascensão nas primárias americanas. Por fim, é necessário observar de perto o mercado de crédito, que desempenhou muitas vezes o papel do canário que antecipa as explosões de grisu numa mina de carvão. Cautela, portanto.

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