Diário do Comércio - Canal direto com o mercado

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Veículo: Diário do Comércio
Data: 10/08/14
 

 
Canal direto com o mercado
 

Lazar, diretor de RI da Kroton Educacional, conta com apoio do comando da empresa. / Divulgação
 
Os especialistas em finanças pessoais não se cansam de recomendar: quem estiver interessado em investir em ações ou quem já tem aplicações nesse mercado deve sempre ter em mente que vai se transformar em um sócio de uma ou mais empresas, mesmo que seja com uma fatia muito pequena do capital. Como acionista, o investidor deve sempre procurar dados e notícias sobre a companhia - resultados financeiros, perspectivas para o negócio, planos de expansão ou estratégias de gestão de crises, por exemplo.
 
Essa garimpagem de informações, que pode parecer complexa para os pequenos investidores ou para os aplicadores de primeira viagem, se torna bem mais simples com a ajuda de um departamento das empresas que nem todos conhecem: a área de Relações com Investidores, mais conhecida pelas iniciais RI, responsável pela ponte de comunicação entre as companhias e seus acionistas e o mercado de capitais. RI, portanto, é uma sigla com que os investidores precisam se familiarizar se quiserem ter uma boa gestão da carteira de ações ou pelo menos saber onde exatamente colocaram parte das economias.
 
Área ganha relevância
 
Mais discretos e até meio "escondidos" no início do processo de desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro, esses departamentos têm conquistado espaço e relevância no Brasil - tanto em relação aos investidores quanto dentro das próprias companhias. É o que sugere uma pesquisa feita neste ano pela Deloitte sob encomenda do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri) e apresentada no mês passado durante o 16º Encontro Nacional de Relações com Investidores e Mercado de Capitais, em São Paulo. Foram ouvidos representantes de 104 empresas, um terço delas com faturamento anual superior a R$ 3 bilhões e 63% com pelo menos mil funcionários. Embora a maioria dos entrevistados ainda afirme que o principal papel do RI é o de comunicador (classificação escolhida por 46% da amostra), 29% dos profissionais que responderam à pesquisa já consideram relevante a função estrategista dos departamentos.
 
Como ressalta o responsável pelo estudo na Deloitte, Bruce Mescher, essa percepção mostra que o RI já é visto pelas empresas como uma área importante nas discussões sobre os rumos das companhias em vez de ser encarado apenas como uma diretoria de divulgação de informações. Segundo ele, essa mudança segue na direção do que já acontece no mercado de capitais internacional. "O profissional de RI não deve apenas se preocupar com uma comunicação ágil com o mercado. Ele precisa ter uma visão mais integrada dos objetivos e do potencial da empresa, com amplo conhecimento do negócio", destaca, lembrando que a formação a cada ano mais multidisciplinar dos profissionais é outro sinal de amadurecimento dessa área. As informações financeiras continuam sendo as que mais têm impacto no mercado - com grande potencial para movimentar os preços das ações ou as recomendações de compra ou venda, por exemplo - mas o Ibri considera que têm aumentado os efeitos da divulgação, pelos departamentos de RI, de informações sobre planejamento estratégico e visão de mais longo prazo. Isso vale até para as empresas de capital fechado, que podem montar estruturas de RI para atender investidores interessados em comprar títulos de dívida.
 
Todas as empresas de capital aberto têm um canal de comunicação com os investidores (grandes e pequenos) por meio das áreas de RI. As formas de apresentação de informações e a rapidez das divulgações têm melhorado com o tempo e com o avanço da tecnologia da informação - ótima notícia para os investidores e para o público diretamente interessado (como os gestores de carteiras ou de fundos de investimento, responsáveis pela administração de recursos de terceiros). De uma maneira geral, os sites de RI oferecem numerosos dados sobre a empresa e variadas ferramentas para navegação e armazenamento de dados. Nesses sites os interessados encontram demonstrações financeiras mais recentes e antigas, comunicados de fatos relevantes enviados ao órgão regulador (a Comissão de Valores Mobiliários) e à bolsa de valores, notas sobre planejamento estratégico e posicionamento em relação a notícias veiculadas na imprensa, agenda de eventos (apresentação de resultados em eventos presenciais, conferências telefônicas), área para cadastramento em mailings, cotações e relação de analistas de bancos e corretoras que acompanham a empresa, entre muitas outras informações.
 
Essa riqueza de dados nas mãos do RI reforça, na avaliação do Ibri, a importância crescente do papel estratégico dessa área. "As atividades de RI são estratégicas para a organização porque consolidam as informações mais relevantes sobre a empresa para o entendimento de seus diferentes públicos de interesse", afirma o presidente do Conselho de Administração do Ibri, Geraldo Soares. Nos sites o investidor também pode encontrar telefones e e-mails de contato. É importante que os pequenos acionistas saibam, entretanto, que as estruturas enxutas dos departamentos de RI naturalmente levam as empresas a dedicar mais atenção pessoal (com reuniões, trocas de e-mails e telefonemas) a quem detém participação acionária significativa. À exceção de empresas gigantes (Vale é um bom exemplo), as áreas de RI dificilmente contam com uma equipe de mais de dez pessoas. Na Vale, por sinal, o papel estratégico do RI é bem claro. Segundo a gerente de RI da empresa, Carla Dodsworth Albano Miller, o departamento divide o trabalho entre as funções tradicionais de divulgação e um atendimento especial para grandes acionistas, para os quais organiza, por exemplo, visitas às instalações da Vale ao redor do mundo. A ideia é conquistar mais acionistas para a companhia.
 
Barreiras culturais
 
O fortalecimento da função é claro, como mostram a pesquisa da Deloitte e depoimentos no 16º encontro do segmento, mas os profissionais de RI ainda precisam, em muitos casos, derrubar barreiras culturais dentro das próprias empresas. Existem muitos conselhos de administração e presidentes que não enxergaram a importância do RI como gerador de valor. Assim, os profissionais da área podem encontrar portas fechadas em outras diretorias quando saem em busca de informações cuja divulgação poderia ser importante para melhorar a percepção do mercado sobre o negócio (não por acaso, o Ibri acaba de lançar a campanha "RI cria valor", desenhada para valorizar os profissionais).
 
Felizmente para o mercado, em numerosas companhias o papel do RI tem sido entendido e prestigiado - como na Kroton Educacional. Em debate no evento, o diretor de RI da empresa, Carlos Lazar, detalhou a estrutura da área que comanda (equipe bastante enxuta, mas igualmente engajada) e ressaltou a importância do apoio do CEO do grupo, Rodrigo Galindo, ao trabalho. E trabalho não faltou para a equipe de Lazar nos últimos meses - a empresa ainda está em um processo de fusão com a Anhanguera, negócio que criou uma empresa gigante no setor educacional e gerou uma enorme demanda por informações sobre a Kroton. Com portas fechadas ou resistência dentro da empresa a comunicação com o mercado poderia ser muito menos eficiente. A experiência da Kroton mostra que o amadurecimento do RI acompanha a maturação do mercado brasileiro de capitais - antes restrito a grandes organizações e investidores capitalizados, hoje cada vez mais aberto a empresas de menor porte e a pessoas físicas.